segunda-feira, 23 de novembro de 2009











Um rompante e tanto*


É verdade que a decisão do ex-prefeito do Recife, João Paulo (PT), de entregar o cargo de secretário estadual de Articulação Regional deixou muita gente espantada. Mas dois petistas foram pegos especialmente de surpresa: o presidente da Câmara do Recife, Múcio Magalhães, e a ex-secretária-adjunta Lygia Falcão.

Pessoas próximas relatam que no sábado à tarde – já com a cabeça mais fria – João Paulo teria reunido os dois auxiliares em sua casa para pedir desculpas pelo rompante. Na conversa, teria explicado a Lygia e Múcio suas razões, afirmando estar cansado do embate com o secretário de Desenvolvimento Econômico, Fernando Bezerra Coelho, pela vaga de candidato ao Senado na chapa de Eduardo Campos (PSB), e dito que não estava disposto a levar a briga adiante, sem que o governador colocasse um freio de arrumação.

Embora tenha admitido aos assessores que tomou a decisão de forma unilateral, João Paulo recebeu, mais uma vez, um aval positivo do Cosmo. É que o astrólogo Eduardo Maia – guru do petista – também teria estado por lá no sábado para fazer nova leitura dos astros, que confirmaram as vantagens políticas do ex-prefeito se sair candidato a deputado federal em 2010.

Eduardo Campos, porém, já fala na manutenção do projeto da chapa. Embora pessoas próximas afirmem que poucas coisas o irritaram tanto quanto a iniciativa de João Paulo, ele não quer perder totalmente o controle sobre o aliado petista, que é dono de um perfil metropolitano absolutamente necessário ao sucesso da reeleição. Só falta o governador dizer o que vai fazer com os planos de Bezerra Coelho.

* Texto publicado na coluna Cena Política, do JC, em 23/11/09


sexta-feira, 20 de novembro de 2009












Cortando as rédeas


Se a intenção do ex-prefeito João Paulo (PT) era demostrar independência do governador Eduardo Campos (PSB), escolheu um momento adequado para pedir demissão da Secretaria de Articulação Regional. E mostrou que a cada dia que passa, aprende mais sobre raposismo político.

Embora tenha entregue o pedido de exoneração na quarta-feira (18), o petista deixou para anunciar sua saída no dia em que Eduardo iniciou a sua quarta caravana de visitas a cidades do interior. Com o comandante ausente do Palácio, ele atraiu todas as atenções na cena política, e deixou uma batata quente nas mãos dos articuladores do governo.

Ao pedir demissão agora, João Paulo desfaz a tese - muito comentada desde julho passado, quando foi convidado para assumir a secretaria - de que o governador teria dado um "nó" no PT, ao colocar sob suas rédeas os dois principais líderes do partido, Humberto Costa e o próprio ex-prefeito.

Desde que assumiu a pasta, o petista vinha galgando espaço político pelo Estado. Mas enxergou que para atingir seus objetivos teria que desfazer a imagem de que estava sob controle de Eduardo Campos.


Há um segundo motivo para a decisão, interlilgado ao primeiro: candidato declarado ao Senado pelo bloco governista em 2010, João Paulo vinha trombando com o secretário de Desenvolvimento Econômico, Fernando Bezerra Coelho, do PSB. Os dois brigavam por uma das vagas na chapa, já que a outra, segundo consta, estaria destinada ao petebista Armando Monteiro Neto.

O que se sabe é que João Paulo não estava satisfeito com a postura do governador, que, na sua opinião, estaria deixando correr solta essa disputa interna, sem se mobilizar para barrar as pretensões de Bezerra Coelho.


O fato é que o acontecimento expõe uma crise política no governo, e causa um abalo na relação entre Eduardo e o PT, principal aliado do PSB, cujo apoio é importante para garantir a reeleição do governador. Ao tomá-la, João Paulo deve estar, inclusive, pronto para optar por uma candidatura à Câmara dos Deputados.

E é provável que ele esteja mesmo apostando suas fichas nessa alternativa, talvez imaginando sair das urnas como o deputado federal mais votado do Estado em 2010. Até porque, quem conhece Eduardo Campos sabe que vai ser muito difícil ele vir a convocar o ex-secretário para compor a sua chapa majoritária depois de todo esse tumulto.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009













Blockbuster eleitoral

Ainda não vi. Portanto, não posso dizer se gostei ou não. Mas seja bom ou ruim, certamente o filme Lula, o filho do Brasil já cumpriu uma das suas funções: causar polêmica e despertar a curiosidade das pessoas por todo o País.

As cenas de tumulto registradas ontem por vários jornalistas no Teatro Nacional de Brasília, durante a avant-première da película, comprovam a máxima de que nunca antes na história desse país um presidente da República atraiu tantas atenções sobre si mesmo.

Seja pela sua história de vida, seja pelas suas ações e seu comportamento incomum no governo, Lula já seria merecedor de um “candango”. O “cara” vai de um bolsa-família de 50 reais à discussão sobre política internacional com a mesma facilidade com a qual transforma uma ação de governo em palanque eleitoral. E com a mesma facilidade, dribla o discurso das oposições e consegue fazer seu nome aparecer centenas de vezes no noticiário nacional.

Pode-se até questionar se o filme do diretor Fábio Barreto tem ou não caráter eleitoreiro, ou se vai ajudar a bombar ainda mais a popularidade presidencial e impulsionar a candidata palaciana à sucessão, a ministra Dilma Rousseff.

O que ninguém mais duvida é de que Lula, o filho do Brasil, vai se tornar um arrasa-quarteirão nos cinemas a partir de janeiro de 2010 – ano de eleições presidenciais – quando chega aos cinemas do País. E que, acostumado a tirar proveito de situações mínimas, Lula, o filho de dona Lindu, certamente colherá dividendos políticos com todo esse frisson.

terça-feira, 17 de novembro de 2009











O jogo dos reservas

Alguém já falou que no futebol, sempre que os reservas elogiam publicamente os titulares, no fundo estão torcendo para que quebrem a perna e eles possam, enfim, entrar em campo. Na política a coisa não é tão diferente.

Não se trata de torcer por contusões ou fraturas, mas chega perto, se formos medir o comportamento de alguns “reservas” na disputa presidencial.

Hoje, há dois claros exemplos. No banco das oposições, o governador mineiro Aécio Neves, da equipe do PSDB, não esconde de ninguém o seu desejo de entrar em campo. Pelo contrário, quer apressá-lo.

Marcou até data-limite para que o titular tucano na disputa presidencial, o governador paulista José Serra, anuncie que é candidato. Se até janeiro o colega não expuser publicamente suas pretensões, ele, Aécio, vai mudar de modalidade e se lançar candidato ao Senado por Minas Gerais.

No banco governista, o deputado federal Ciro Gomes (PSB-CE) é mais direto. Embora não tenha sido escalado pelo Palácio do Planalto como atacante titular na disputa, Ciro se rebelou contra o treinador Lula e expôs publicamente seu desejo de entrar em campo a todo custo.

Há cerca de dois meses, o parlamentar cearense – nascido em Pindamonhangaba, interior paulista – se escalou para o clássico de 2010, que no time do Planalto tem como titular a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff (PT).

Sob o argumento de que a equipe atuaria melhor com dois atacantes, Ciro se apresentou para o jogo. Mas, atendendo a um pedido do “professor” Lula, fez a concessão de transferir seu domicílio eleitoral para São Paulo, com a justificativa de que poderia ser escalado para jogar na segunda divisão das eleições, disputando o governo daquele Estado.

Aécio, e Ciro, porém, dão sinais de que estão perdendo a paciência com a demora de seus dirigentes em definir as escalações. Hoje, os dois reservas se encontram num almoço em Minas Gerais para “discutir o Brasil”. Na verdade, vão debater estratégias eleitorais e analisar em que pé andam suas condições de ser ou não convocados para a partida do próximo ano.

O que há de novidade nisso? É que, enquanto no futebol dois adversários não costumam se falar antes do jogo, e muito menos elaborar jogadas ensaiadas em conjunto, na política isso é perfeitamente possível.

Embora governista, Ciro Gomes é bem visto pelos tucanos mineiros. Seu partido, o PSB, fez aliança com o PSDB na disputa municipal do ano passado e elegeu o prefeito da capital Belo Horizonte, o socialista Márcio Lacerda.

O diálogo franco entre Ciro e Aécio coloca sob pressão os titulares da peleja – Serra e Dilma – porque ambos precisam dos votos de Minas. A grande torcida mineira é o segundo maior colégio eleitoral do País, com cerca de 14 milhões de votantes, e as pesquisas têm apontado Aécio como o melhor governador do País.

O próprio presidente Lula já admitiu que uma candidatura do tucano mineiro seria mais difícil de enfrentar que a do correligionário paulista.

Já Ciro Gomes, por enquanto, parece estar sob controle do treinador. Mas sua disposição de ser candidato e seu temperamento difícil ainda podem render muitas dores de cabeça aos cartolas da equipe governista.



quinta-feira, 5 de novembro de 2009


















Acima do bem e do mal

Ao descumprir a decisão do Supremo Tribunal Federal de cassar o mandato do senador Expedito Júnior (PSDB-RO) – acusado de abuso de poder econômico e compra de votos na eleição de 2006 – o Senado brasileiro dá mais uma demonstração de que continua se colocando acima das leis que regem o País.


O Supremo, até onde se sabe, tem o papel de guardião da Constituição Federal. Aquele conjunto de leis aprovado pelo Senado e Câmara dos Deputados, que parece só não valer para eles próprios. Para os parlamentares brasileiros, o corporativismo é maior que a própria Carta. A ordem é proteger os seus, não interessando se são comprovadamente culpados.

Recentemente, o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), escapou das denúncias de abuso de poder político e econômico. Seu antecessor no cargo, Renan Calheiros (PMDB-AL), saiu impune das acusações de que recebia propina de um lobista para pagar pensão a um filho fora do casamento.

Dois outros ex-presidentes da Casa também escaparam da guilhotina: Antônio Carlos Magalhães (DEM-BA) – já falecido – violou o sigilo do painel de votações. Antes que fosse cassado, renunciou. O mesmo fez Jader Barbalho (PMDB-PA), após a comprovação de denúncias de desvio de verbas da Sudam.

Se presidentes do Senado não são punidos por seus crimes, é até natural que os colegas tentem preservar o pescoço de Expedito Júnior.

Dessa vez, porém, há um fator extra: os senadores andam revoltados contra o Supremo, porque a Corte tem legislado sobre questões eleitorais. Avaliam que o Judiciário estaria extrapolando suas funções e interferindo nas atribuições constitucionais do Legislativo.

Os senadores não explicam, porém, que os ministros do STF só avocaram esse poder para si porque o Congresso, a quem caberia produzir tais leis, não as fez. A reforma política, por exemplo, dorme nas gavetas da Casa porque as mudanças propostas no projeto não interessavam à maioria dos parlamentares. Simples assim.

É por essas e outras que políticos sérios, que discordam do comportamento da maioria dos colegas, estão deixando a vida pública. Para esse pequeníssimo grupo, o corporativismo, a corrupção, o nepotismo e o desprezo às leis são inaceitáveis. Mas como se sentem impotentes para dar combate a esse vício, sua única saída é abandonar o barco. Até porque, ao contrário dos colegas, para eles a generalização incomoda e macula o histórico.

terça-feira, 3 de novembro de 2009











Nunca antes na história deste Estado...


O presidente Lula volta hoje a Pernambuco para mais uma atividade política. Dessa vez, vai falar no Congresso Nacional de Saúde Coletiva, sobre Josué de Castro e a fome no Brasil. Permitam-me o trocadilho infame: um prato cheio para Lula! Ele adora o tema. E adora personalizá-lo. Focar nele a sua própria história.

Esta será a sétima visita presidencial, somente este ano. Ano em que Lula deflagrou de vez a campanha da ministra Dilma Rousseff à sua sucessão. E Dilma – ainda pouco conhecida do povão, segundo as pesquisas – estará lá, no Centro de Convenções, ao lado do chefe e maior cabo eleitoral.


Antes da visita de hoje, Lula já esteve em Pernambuco outras seis vezes, para participar de ações do arco da velha. Já pilotou tratores na inspeção às obras da BR 101, presenciou um “batimento de quilha” de um navio em produção no Estaleiro de Suape, comeu mortadela produzida aqui, inaugurou escolas técnicas, laboratório de rádio-fármacos, moinho de trigo. Todos já vinham em funcionamento, é verdade. Mas isso é apenas um detalhe.


Sim, claro, teve a “inauguração” do Parque Dona Lindu – aquele que ainda não foi entregue à população. O presidente escolheu Fernando de Noronha para passar o réveillon. Também já sobrevoou a construção da Ferrovia Transnordestina. Recentemente, ele inspecionou os canteiros de obras da transposição do Rio São Francisco, em solenidades tão cinematográficas que a oposição chiou. Tinha sempre Dilma ao seu lado.


Mas o fato é que, se Lula está ou não em campanha, isso é o que menos importa agora ao governador Eduardo Campos (PSB). Este sim, está em campanha pela reeleição. E tem colhido mais dividendos eleitorais a cada visita presidencial.


Eduardo brilhou em todas elas, tirou proveito político, mostrou suas obras – muitas realizadas graças ao dinheiro federal do PAC – e, melhor que tudo, mostrou a si mesmo, ao lado de um presidente que tem aprovação popular estourando a casa dos 90%.


Nunca antes na história deste País um presidente visitou tanto Pernambuco. E nunca antes na história deste Estado, um governador foi tão prestigiado pelo chefe da Nação.


Mexendo na memória, ficou até difícil lembrar das poucas vezes em que Fernando Henrique Cardoso (PSDB) esteve por aqui. Fosse na época de Miguel Arraes (PSB) – que lhe fazia oposição – fosse com Jarbas Vasconcelos (PMDB), um grande aliado.


Essa movimentação de Lula deixa a oposição estadual louca. Sem ter sequer um candidato a governador definido para mostrar ao povo, perde tempo e terreno e ainda tem que engolir o teatro político-eleitoral do bloco governista, sorridente nas fotos ao lado do presidente.


Deve ser mesmo difícil fazer oposição num cenário tão adverso. Talvez seja por isso que Jarbas prefere guardar sua munição para disparar em Brasília, na tribuna do Senado.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009










Um mineiro inquieto


Paciência tem limites. Esse foi o recado, curto e grosso, enviado à cúpula do PSDB pelo governador de Minas Gerais, Aécio Neves. Um dos nomes do partido para a disputa presidencial de 2010, Aécio vinha aguardando disciplinadamente que os tucanos escolhessem entre ele e José Serra (SP) quem vai enfrentar a candidata petista Dilma Rousseff. Esta semana, porém, deu um ultimato à legenda. Se em janeiro não houver definição, vai se lançar candidato ao Senado.

Ao contrário do seu colega mineiro, a situação de Serra é confortável. Foi ministro da Saúde de FHC e candidato à Presidência da República em 2002. Como resultado, tornou-se bem mais conhecido dos eleitores brasileiros. Outra vantagem do tucano paulista é que ele cumpre o primeiro mandato no governo de São Paulo, e caso resolva não concorrer ao Planalto, tem pela frente a possibilidade de disputar uma reeleição razoavelmente tranquila.

Aécio, por sua vez, está terminando o segundo mandato consecutivo no governo de Minas. E quer alçar voos mais altos. Tem a vantagem de ser mais jovem que o correligionário paulista. Ou seja, pode esperar um pouco mais para tentar o cargo máximo da Nação. Mas ele acredita que sua hora é agora.

Por tudo isso, o tucano mineiro tem pressa. O paulista, não. Embora esteja aparecendo como primeiro colocado em todas as pesquisas sobre a disputa presidencial realizadas até agora, Serra prefere aguardar até março antes de anunciar sua decisão.

Nesse período, vai analisar o desempenho de Dilma - empinada publicamente pelo presidente Lula como candidata praticamente todos os dias - e aguardar o desfecho da disputa interna no bloco governista, travada entre a ministra da Casa Civil e o deputado federal cearense Ciro Gomes, que também postula uma candidatura ao Planalto, contra a vontade do aliado PT.

O jogo de Serra parece simples: se em março ele não sentir firmeza no palanque das oposições, ou achar que suas chances de vencer são muito reduzidas, terá pavimentado mais da metade do caminho da reeleição para o governo de São Paulo. Afinal, mesmo negando - por enquanto - a candidatura presidencial, o governador tem ocupado generosos espaços na mídia. Serra está valorizando o passe.

Talvez seja por isso que o PSDB - cuja maioria é declaradamente pró-Serra - tem sido tão complacente diante desse debate interno. Inclusive evitando a todo custo promover as prévias dentro do partido, que tanto Aécio defende, para a escolha do candidato.

A indefinição está, inclusive, dificultando as alianças do PSDB em vários Estados, onde opositores de Lula aguardam uma definição do candidato a presidente para formar os palanques locais.

O ônus dessa demora provocada por Serra, porém, pode ser maior do que os tucanos contabilizam. Se chegarem em março sem uma definição, pode ser tarde para recuperar o terreno perdido para Dilma, Ciro e até Marina Silva (PV). E a partir daí, vai ficar bem mais difícil para Aécio, que ainda precisa rodar muito o País para se tornar conhecido do eleitor. Enquanto Serra vai ficar assistindo de camarote.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009









Unidade acima de tudo


Que os partidos de oposição em Pernambuco estão em situação incômoda para 2010, é inegável. Lutam contra máquinas fortes, pilotadas pela dobradinha PT/PSB e alimentadas com o combustível da alta popularidade dos governantes.

Mas as dificuldades apenas começam por aí. Não bastasse o campo governista estar forte e coeso, na oposição a situação é de fragilidade. Tucanos e democratas se desentendem, o PMDB se mantém em compasso de espera pela decisão do seu cacique maior, Jarbas Vasconcelos, e o PPS não tem força política para levantar sozinho uma bandeira de combate às gestões de Eduardo Campos e de Lula no Estado.

Há, porém, um novo elemento que só tende a provocar mais ansiedade nos líderes oposicionistas locais. Ao contrário de um desfecho amistoso como apregoava antes, o PSDB nacional anda às voltas com um acirramento interno entre os defensores das candidaturas dos governadores José Serra (SP) e Aécio Neves (MG) à Presidência da República.

Com a tese da chapa puro-sangue ganhando corpo, os tucanos mineiros ameaçam se rebelar. Não querem nem ouvir falar de Aécio na vice de Serra, embora a ideia tenha sido bem aceita, segundo pesquisa encomendada pelos serristas.

O que isso tem a ver com Pernambuco? Bem, sem munição local para enfrentar a candidatura de Eduardo à reeleição, a oposição pretende nacionalizar a campanha, vincular os palanques estadual e nacional anti-Lula. E para isso, é necessário, no mínimo, unidade interna. Algo que fica mais distante a cada dia que passa.

* Publicado na coluna Cena Política, do JC, em 26/10/09


sexta-feira, 23 de outubro de 2009











Desequilíbrio entre poderes


Que o presidente Lula é uma figura singular, ninguém tem dúvida. Mas pode-se dizer o mesmo do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Gilmar Mendes. Ambos sofrem de uma incontinência verbal que ultrapassa os limites do cargo.

O problema de Lula é agir forma explosiva e espontânea, quando grita aos quatro ventos que é tão ou mais popular que Getúlio Vargas e JK, e chega a fazer comparações com Jesus Cristo. As reações de Mendes são diferentes, pensadas, críticas. E todas dirigidas a Lula.

Exatamente por isso a questão torna-se preocupante. Afinal, são dois chefes de poder, que pela altura do cargo precisam manter o equilíbrio. Como cidadão, Mendes tem o direito de opinião. Mas a forma como as vem externando o distanciam da postura de magistrado.

O presidente do STF voltou à carga, criticando as viagens do desafeto Lula pelo Brasil. Mendes reconhece que viaja muito pelo País - e com dinheiro público - mas não para fazer campanha eleitoral fora de época.

Ora, e Lula está em campanha? E se está, cabe ao líder da magistratura do País denunciar? Ou seu papel seria o de julgar ações nesse sentido, como a que foi impetrada pela oposição no começo da semana, para que a Justiça investigue se a vistoria de Lula e comitiva às obras no Sertão de Pernambuco se configura em crime eleitoral?

"Não tenho nada contra viagens. Ele que viaje bastante, não há nenhum problema quanto a isso. Estou dizendo é quando se transforma eventual fiscalização de obra ou suposta fiscalização de obra em comício ou manifestação eleitoral. Foi essa a minha observação", disse Mendes. Ou melhor dizendo: acusou Mendes.

Da mesma forma que cabe a Lula manter o equilíbrio da administração e não usá-la como trampolim para candidato A ou B, ao presidente do STF cabe ter mais cuidado com suas declarações, para garantir o equilíbrio da balança da Justiça. Não é porque um descumpre sua função que o outro deve seguir o exemplo.








Ah, esses fariseus...

O presidente Lula não lançou moda nem inventou nenhuma novidade em termos de alianças políticas. Antes dele, tucanos e democratas deram-se as mãos para garantir o poder. Mais atrás, em 1985, PMDB e PFL – antigos MDB e dissidentes da Arena – formaram a Aliança Democrática para eleger Tancredo Neves presidente no Colégio Eleitoral, contra o candidato da ditadura que o primeiro combatia e o segundo apoiava.

Vasculhando mais fundo a história, Getúlio Vargas foi às turras com os comunistas, cassou o registro do Partidão e perseguiu seus representantes. Logo depois, se aliou a eles para se manter no poder. E por aí vai.

Vejamos o passado recente em Pernambuco. Um dos principais líderes da oposição aos governos da ditadura, Jarbas Vasconcelos (PMDB) firmou um acordo de irmãos com os antigos adversários do PFL para se eleger governador. Antes dele, Miguel Arraes havia acomodado sob suas vistas muitos representantes do coronelismo patriarcal do Estado.

Alianças são parte da história da política. E no Brasil, ideologias e programas sempre ficaram em segundo plano. Diferentemente de países como os Estados Unidos e alguns da Europa, onde lado é lado, e ponto final.

O problema não reside nos acordos. Se são questionáveis, que se questione os demais. Reside, isto sim, na verborragia presidencial, qualidade inabalável de Lula. Não há limites diplomáticos, digamos assim, para as declarações do líder da Nação. Nem há quem o advirta de que misturar política e religião é um erro mais grave que crime eleitoral.

No seu universo político particular, Lula nem liga. Vai falando. Comparações pessoais com Juscelino Kubitschek ou Getúlio Vargas já são corriqueiras. Semana passada, no Sertão de Pernambuco, ao destacar a importância das obras da transposição do rio São Francisco, ele se colocou no patamar de Franklin Roosevelt, ao compará-las com o histórico programa do New Deal, que incluía um plano de desenvolvimento para o Vale do Mississipi.

Mas quando afirmou que no Brasil até Jesus Cristo faria alianças com Judas para governar, Lula exagerou, comparando-se ao filho de Deus. Blasfêmia? Talvez, mas não se analisado da forma como o nosso presidente vê as coisas. Por esse prisma, a comparação não está de todo errada, porque Lula não é o primeiro governante brasileiro a vender a alma ao diabo para garantir popularidade.

A diferença é que os outros fazem, mas não dizem abertamente. Sabem que declarações assim fazem o puritanismo e espírito conservador brasileiro saltar dentro das calças e partir para o contra-ataque.

Foi o que fez a CNBB. A organização dos bispos protestou imediatamente, lembrando que, ao contrário de Lula, Cristo não se aliou aos fariseus. Apenas acolheu os pecadores.

Bom, ainda assim o presidente está com certa razão. Afinal, no grande Éden em que se transformou o seu “governo de coalizão” já foram acolhidos muitos que, no passado, ele próprio tratou de rotular como pecadores: José Sarney, Fernando Collor, Paulo Maluf, Inocêncio Oliveira, Renan Calheiros, Jader Barbalho. Só para citar alguns “fariseus”, na ótica petista pré-governo.

Lula, de fato, está longe de ser Cristo. Mas no Brasil que criou a partir do seu primeiro mandato, ele casa e batiza. E às vezes dá até a extrema unção.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009










Semelhanças e diferenças

Na visão de alguns mais otimistas, o ex-ministro Gustavo Krause (DEM) tentou passar uma mensagem tranquilizadora às oposições ao lembrar seu próprio caso, em 1994, quando foi escolhido para enfrentar – quase que olimpicamente – a forte candidatura de Miguel Arraes (PSB) ao governo do Estado. Não havia um nome eleitoralmente poderoso para tanto. E ele, então, foi impulsionado para demarcar o terreno governista e garantir a sobrevivência do seu bloco político e da bancada parlamentar.

Para outros, porém, o recado de Krause pode ser lido nas entrelinhas: ao lembrar 94, ele sinaliza um certo conformismo de que não deve haver novamente um candidato com condições de evitar a reeleição do governador Eduardo Campos (PSB).

Para bom entendedor, não dá para ficar apenas sonhando com uma candidatura do senador Jarbas Vasconcelos (PMDB). É preciso botar o pé no chão e reconhecer que essa hipótese fica mais distante a cada dia que passa. Vale lembrar que nas duas vitórias da União por Pernambuco, em 1998 e 2002, ambas comJarbas à frente, não houve disputas internas, divergências entre caciques ou, como afirmou Krause, sequer “trepidações”.

A diferença entre 2010 e 1994 – e mesmo de 1986, quando o PFL, sem condições também de enfrentar Arraes, lançou a candidatura olímpica de José Múcio – é que dessa vez não parece haver nas oposições pernambucanas sequer uma alternativa “para competir”.

Nacionalizar a campanha é, como sempre, um perigo real e imediato. Em 94, como bem lembrou o ex-ministro, o então candidato tucano Fernando Henrique Cardoso largou bem atrás. Mas decolou, alçado pelo Plano Real, pela aliança com o PFL – na época o maior partido do Brasil – e por mais uma série de contingências favoráveis.

Hoje, quem preside o País é Lula, o mesmo candidato que fora derrotado outras três vezes pelo atual bloco de oposição. Mostrou verve e persistência. E mais que isso: mostrou engenhosidade.

Lula governa com uma popularidade estratosférica, sem ter inventado nenhum plano econômico. Tirou partido do esquema que herdou do próprio FHC. Também não implementou programas sociais novos, só deu um upgrade nos que recebeu dos tucanos.

A grande diferença, porém, é o conjunto de forças que o apóia. Não apenas em Brasília, onde aos poucos foi montado um esquema de adestramento partidário de causar inveja aos seus antecessores, mas também na grande maioria dos Estados, onde Lula hoje conta com vários governadores e prefeitos aliados, fortalecidos com seus programas federais.

Por todos esses fatores, não se trata de dizer que a oposição em Pernambuco estaria jogando a toalha. De fato, eles sabem – Jarbas, principalmente – das pouquíssimas chances de vencer a disputa local, ainda que se nacionalize a campanha e José Serra reconquiste o governo central.

Mas Serra é mesmo candidato? Porque como bem lembrou Jarbas, a indefinição no PSDB entre ele e Aécio Neves só estica ainda mais a corda para o lado governista.


domingo, 18 de outubro de 2009















Dormindo no ponto


Com uma legislação frouxa como a do Brasil, em vez de o PSDB ir à Justiça Eleitoral contra a viagem de Lula e comitiva ao Sertão do São Francisco, na semana passada, deveria mesmo era ir às ruas com seus pré-candidatos. Porque enquanto os tucanos tentam ganhar espaço no tapetão, os petistas se adiantam e mostram a cara ao eleitor.

Está certo que o PSDB não dispõe do cobertor da máquina administrativa para justificar qualquer aparição pública, como fez na candidatura à reeleição de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), em 1998, e na pré-campanha de José Serra, então ministro da Saúde de FHC, em 2002. Mas há outros modos. E Serra até que vem conseguindo aparecer bem, com uma viagem aqui e outra ali pelo País.

Ou vão me dizer que um governador de São Paulo tem o que fazer em Petrolina, ou em Exu? Foi clara a intenção eleitoral dessas visitas de Serra – só para ficar nas duas últimas que aconteceram recentemente em Pernambuco – de divulgar a sua candidatura e tentar quebrar o estigma de anti-nordestino que paira sobre o governador paulista.

É pouco, diante do poderio da máquina do PT, aliada ao PSB e ao PMDB em vários Estados. Mas é onde o PSDB deveria apostar. Porque se forem esperar pela opinião da Justiça Eleitoral, além de correr o risco de ver seus adversários inocentados, os tucanos ainda perdem tempo e terreno importante.

Sobretudo no Nordeste, onde, não bastasse o arsenal de obras – algumas muito aguardadas pelo povo, e que os governos do PSDB não tiveram o cuidado de tocar – Lula e seu candidato, ou candidata, ainda comandam um grande cabo eleitoral, o Bolsa-Família. Instrumento ironicamente herdado do governo tucano. Que não soube explorá-lo politicamente.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009












Uma briga desigual

O deputado Ciro Gomes (PSB) parece mesmo decidido a disputar a sucessão presidencial. Tanto que vem agindo como candidato durante toda a visita do presidente Lula às obras da transposição, em Minas Gerais, Bahia e Pernambuco. Não desgruda de Lula em nenhum momento. Nem de madrugada, quando a comitiva descontraiu ao som do forró de Maciel Melo.

Ao contrário da sua concorrente, Ciro foi um dos últimos a sair da festinha. E amanheceu praticamente na porta do quarto do presidente. Mas ninguém se engane, achando que Lula hesita em algum momento entre Dilma e Ciro. Nem mesmo diante das pesquisas, que apontam o deputado na frente da ministra da Casa Civil.

A presença de Ciro na comitiva foi comentadíssima pelos aliados, mas apenas como uma deferência do presidente ao seu ex-ministro da integração Nacional, que durante o primeiro mandato foi o responsável por iniciar as obras da transposição.

Lula não esconde que tem uma dívida de gratidão com Ciro, pela obra que encontrou em estágio avançado.

Mas é só. Dilma continua preferida, e, beneficiada pelo status de "mãe" do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), teve lugar cativo ao lado do presidente nas aparições públicas da comitiva.

Os dois presidenciáveis conversaram muito no Sertão, trocaram sorrisos e acenos. Até dividiram "eleitores". Mas enquanto a ministra caminha junto a Lula, Ciro tem se mantido discretamente um passo atrás ou à frente.

A desvantagem, porém, é maior que isso. Parte do PT não quer nem ouvir o nome de Ciro. Avaliam que seu passado de ex-tucano compromete qualquer chance de apoio à uma candidatura presidencial. Não bastasse ter governado o Ceará vestindo a camisa do PSDB, foi sob esse mesmo manto que ele ocupou o Ministério da Fazenda de Fernando Henrique Cardoso. Rompeu logo no início da gestão tucana, é bem verdade. Mas para filiar-se ao PPS, outra legenda que hoje faz dura oposição ao governo petista.

Se o ex-ministro traz no currículo, além do preparo técnico e político, o histórico de duas disputas presidenciais, a atual ministra, por sua vez, permanece ungida pelas bençãos de Lula e sua altíssima popularidade. E isso, ao menos no Brasil de hoje, é uma credencial bem mais poderosa.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009














O gato no telhado


Durante o encontro do PMDB em Abreu e Lima, no fim de semana, o senador Jarbas Vasconcelos (PMDB) deixou claro nas entrelinhas do seu discurso que não pretende vestir a camisa de opção única das oposições na disputa pelo governo do Estado em 2010.

Quem entende bem a linguagem "cifrada" de Jarbas, interpretou o recado: ele não está disposto a ir para o sacrifício, entrando na briga sem uma base sólida. E se
topar a parada de enfrentar a forte máquina que está por trás da reeleição de Eduardo Campos (PSB), estará agindo movido por pesquisas que lhe garantem uma mínima chance de vitória. Porque, pessoalmente, sua vontade de voltar ao governo é zero.

Houve jarbista, porém, que saiu do encontro do PMDB achando que o chefe estaria um pouco mais estusiasmado com a possibilidade de vir a disputar um terceiro mandato no Palácio do Campo das Princesas. Esses, certamente, não compreenderam bem a fala de Jarbas.

Ao afirmar que
"as oposições vão buscar o que for melhor para o Estado", e que terão o que mostrar em 2010, ele sinalizou exatamente o contrário. Em bom politiquês, avisou que seria melhor examinar outras alternativas para a cabeça de chapa.

Jarbas não esconde que seu desejo pessoal é permanecer no Senado, onde tem destaque nacional como uma das poucas vozes de oposição ao presidente Lula. E no caso de vitória do presidenciável do PSDB, José Serra, essa notoriedade tende a crescer. Como um dos grandes aliados do tucano, independente de estar filiado ao PMDB, seu nome certamente figuraria numa lista de "ministeriáveis".

Há uma outra hipótese que animaria de verdade o peemedebista: a disputa presidencial, como candidato a vice de Serra. Se dependesse da vontade dos tucanos, o convite já poderia até estar feito. Mas a indisposição de Jarbas com a maioria governista do PMDB praticamente anula as chances.


De qualquer forma, já era previsível uma sinalização de recuo por parte do senador após concluído o prazo para filiação partidária de candidatos às eleições de 2010. Enquanto a temporada de troca-troca esteve aberta, ele procurou não se manifestar, para evitar uma debandada ainda maior no já debilitado quadro da oposição. Afinal, muita gente se segurou por lá movida pelo fio de esperança de tê-lo na chapa majoritária.


No fim de semana, porém, Jarbas começou a pôr um freio nos aliados mais otimistas. Deixou clara, em alguns trechos do seu discurso, a cautela com que trata o assunto. Por exemplo, quando afirmou que "... pode ser A, B ou C que vá disputar o governo. Essa pessoa vai ao guia eleitoral mostrar o que Pernambuco fez quando o PMDB foi governo".

Não nominou quem seriam esses "A, B ou C". Nem precisava. Mas a cúpula da União por Pernambuco entendeu a mensagem. E provavelmente não gostou.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009














Enem aí!

Tinha começado com o pé esquerdo, na base da experimentação e da politicagem. Só podia dar no que deu. As provas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) – novo modelo de vestibular implantado a jato no Brasil, sob protestos dos estudantes e escolas – foram roubadas.


Parece surreal. Na primeira tentativa de inovar a seleção de candidatos às universidades públicas, o governo se deixa vitimar por uma gatunice. Os ladrões das provas ­– supostamente retiradas do bem vigiado cofre do Inep, entidade encarregada de elaborar os exames – tentaram vendê-las ao jornal O Estado de S. Paulo. Por R$ 500 mil e um aviso: “Isso é sério, derruba ministério”.


Os intermediários, porém, levantaram suspeitas mais graves: as provas teriam sido surrupiadas por uma quadrilha de cinco pessoas, provavelmente funcionários do Inep.


Que no Brasil, coisas como essas aconteçam, não é surpresa. É até cultural, levando em consideração o exemplo dos nossos representantes, movidos à base da Lei de Gérson.


É preciso cobrar explicações do Ministério da Educação sobre a escolha do Inep para o trabalho. E também sobre o esquema de segurança das provas.


Se todo esse escândalo derruba ministro? Em países sérios, talvez. Por aqui, é improvável. Principalmente se o ministro tiver projeto eleitoral, avalizado pelo governo.

Não é apenas um roubo, mas um prejuízo grande para mais de 4 milhões de estudantes. Gente que se preparou muito. Gente que, de última hora, teve que esquecer todo o antigo esquema de vestibular para o qual vinha treinando, e que se esforçou para entender o novo modelo, implantado goela abaixo sem dar um ou dois anos, pelo menos, para as escolas e cursinhos se adaptarem.


Agora, enquanto a estudantada espera, pacientemente, mais 45 dias pela nova data da prova, o jeito é seguir a singela recomendação do ministro Fernando Haddad, e utilizar esse tempo para continuar estudando.

terça-feira, 29 de setembro de 2009












Quem representa o povo?

Começaram a tomar posse como vereadores os primeiros suplentes beneficiados pela PEC aprovada pelo Congresso Nacional no dia 23 passado. Polêmica e desnecessária, a emenda permitiu a criação de mais de 7 mil novas vagas nas câmaras municipais pelo País afora.

Não bastasse o papel do vereador já vir, há muito, sendo questionado, lá vai o Brasil de novo na contramão da história. Em muitos dos países desenvolvidos, a figura do vereador simplesmente inexiste. A função é exercida – e a contento – por conselheiros de bairros, que uma vez ou duas ao mês se reúnem para discutir os problemas das suas comunidades e tratar de questões da cidade.

Um detalhe importante: esses conselheiros são votados distritalmente, não recebem remuneração, não têm direito a nomear funcionários comissionados nem dispõem de verbas de gabinete, assessores, secretárias, motoristas e outras regalias pagas com dinheiro do contribuinte.

Os conselheiros vivem do dinheiro que ganham em suas profissões. E nos dias em que precisam se afastar do emprego para assumir a representação comunitária, são indenizados com uma remuneração referente a um dia de trabalho.

Alguém acha que com um sistema semelhante no Brasil, haveria tanta gente interessada no cargo?

Pois bem. Sábado, os dois primeiros suplentes de vereador tomaram posse nos cargos em Bela Vista de Goiás (GO). Em solenidade concorrida, com discursos e foguetório.

Ontem, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Carlos Ayres Britto, enviou ofício aos presidentes dos tribunais regionais eleitorais informando que, no entendimento do TSE, as novas vagas de vereadores criadas pela PEC só poderiam ser preenchidas a partir da próxima eleição municipal, em 2012.

Tarde demais. Várias posses já estão marcadas pelo País. Inclusive em Pernambuco. São Caetano e Toritama foram as duas primeiras cidades onde as câmaras anunciaram que vão dar posse aos suplentes beneficiados com a emenda.

Se a moda pega, a onda de ampliações vai se alastrar. Em algumas cidades, de acordo com os cálculos da PEC, o número de novos vereadores pode chegar a dez. Casos como São Luiz do Maranhão e Maceió das Alagoas. Dois lugares onde a política ainda é feita à moda dos coronéis.

E não bastasse o drama do aumento das vagas, há quem ainda faça uso político disso. Em alguns municípios onde os prefeitos têm minoria no legislativo, a ampliação começa a ser vista como uma arma para virar o jogo.

Basta que os suplentes beneficiados sejam aliados do governo. Pronto! É maioria garantida na câmara. E o contribuinte é, mais uma vez, apenas um detalhe.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009











E agora, Lula?


A grande novidade da nova rodada da pesquisa CNI/Ibope sobre a sucessão presidencial, divulgada ontem, não é a queda de quatro pontos no índice do líder, José Serra (PSDB). Nem o bom desempenho da estreante Marina Silva (PV), que de saída já recebeu 8% das intenções de voto.

Novidade mesmo é o tamanho da dor de cabeça que o levantamento gerou no alto escalão do PT, com a ascensão do presidenciável do PSB, Ciro Gomes.
Ainda falta um ano para as eleições, e ele já ultrapassou a ministra Dilma Rousseff, preferida de Lula para representar o lado governista na disputa.

Ciro, que em junho aparecia em terceiro lugar, foi para a vice-liderança da corrida, com 17%. Dilma, ao contrário, aparece agora com 15%. Perdeu quatro pontos percentuais em relação à pesquisa de junho, e também perdeu a segunda posição para o socialista.


Soou um alerta geral no Palácio do Planalto. Afinal, como aliado de primeira hora, o PSB não deve ser magoado. E muito menos, combatido. Já desconfiado que o cenário pré-eleitoral ia se complicar, o presidente Lula fez o que pode para evitar mais esse revés da sua candidata.

O apelo pessoal, feito ao presidente nacional do PSB, governador Eduardo Campos, um fiel escudeiro, não deu resultados.
Lula, então, inventou um plano B para Ciro Gomes. Sacrificaria os planos de alguns petistas da sua mais alta estima ­- como Marta Suplicy, Antonio Palocci e José Genoíno -, para ceder a vaga de candidato do Planalto ao governo de São Paulo para o deputado federal cearense, nascido em Pindamonhangaba (SP). Também não funcionou.

Embora ciente de que São Paulo é "um país dentro de um país", Ciro se manteve irredutível. Já disputou duas eleições presidenciais sem sucesso, mas, baseado no exemplo do próprio Lula, pretende insistir até conseguir.

Quem gosta de política, sabe de cor o jargão: pesquisa é o retrato de um momento. É verdade. Tudo pode mudar até outubro de 2010. Mas para que mude mesmo, é preciso que os protagonistas se movimentem de forma mais clara e decidida.

E que movimentos a mais Lula poderia fazer em favor de Dilma? Só não carregou a ministra nas costas porque pegaria mal. Mas até já puxou a aliada para cima de um trator. Levava a presidenciável no bolso do colete para qualquer solenidade, de qualquer setor do governo, fosse em que Estado fosse. E só deu um tempo quando ela precisou tratar um linfoma.

Se botar mais um pouco de empenho, o presidente corre o risco de terminar acusado pelos concorrentes de usar a máquina administrativa em favor da sua candidata. Um hábito condenável, que - se não me falha a memória - os petistas, quando na oposição, costumavam sempre apontar nos seus adversários.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009










Governismo epidêmico

Faltam pouco mais de dez dias para o término do prazo de filiação partidária para candidatos às eleições do próximo ano, e até agora não se viu tanto troca-troca de legendas como na disputa passada. O que não é surpresa. Afinal, depois que a Justiça Eleitoral promulgou a resolução estabelecendo a fidelidade partidária - medida que o Congresso Nacional deveria ter votado, mas se recusou - quem mudar de sigla sem justificativa apropriada pode perder o mandato.

A aproximação da data final, porém, deve revelar novo surto de uma doença que costuma pegar de jeito uma ampla faixa de políticos brasileiros: o governismo. Os sintomas - nem sempre muito evidentes - consistem em mudanças bruscas de posição política, um inexplicável sentimento de simpatia pelo governante ao qual o acometido da doença costumava fazer oposição, amnésia e negação do próprio passado.

Se você percebeu algum desses sintomas no político em que votou, não se assuste. O governismo não mata. Ao contrário, promove. Via de regra, deixa a "vítima" mais poderosa e mais ativa. Às vezes até um pouco mais rica. Em outras, aumenta o potencial de votos. No ápice, pode garantir até uns carguinhos extras.

O governismo só é nocivo ao eleitor e à sociedade. Afinal, político brasileiro vinculado a uma ideologia política ou a conteúdos programáticos de um ou outro partido, é algo raro. Política, hoje, se faz por conveniência, afinidades pessoais e oferta de vantagens.

Por isso a expectativa quanto ao encerramento do prazo de filiações de candidatos. A data será uma espécie de termômetro, que vai auferir se a febre do governismo aumentou ou diminuiu.

Em Pernambuco, a doença está cada vez mais espalhada. Nos próximos dias, deve contaminar um bom número de prefeitos e vereadores. E certamente chegará com mais potência à Assembleia Legislativa.

Já na esfera nacional, diante da indiscutível força política da máquina governista pilotada pelo presidente Lula - alimentada pelo Bolsa-Família e agora movida a petróleo do pré-sal -, é provável que o governismo, a partir de outubro próximo, ganhe uma dimensão epidêmica.

Os "pacientes" passarão por um período de aproximadamente um ano de incubação. A má notícia - para eles - é que apesar da contaminação voluntária, nem todos conseguirão a cura nas urnas de 2010.

terça-feira, 15 de setembro de 2009















Sem tesão não há eleição

Candidato a presidente estadual do PT pelo Campo de Esquerda Unificado (CEU), o deputado federal Fernando Ferro não foi feliz ao afirmar que a mídia brasileira sente "prazer sexual" em atacar o seu partido. Afinal, a imprensa - ao menos a parte responsável dela - costuma se limitar a reproduzir críticas de adversários ou publicar análises baseadas em fatos produzidos pelos próprios políticos.


Mas quem precisa de adversário no PT? Uma das melhores e mais lúcidas definições sobre o momento atual da legenda foi feita ontem, no Recife, por um petista do alto escalão, o deputado federal brasiliense Geraldo Magela. Colega de Ferro na Câmara dos Deputados, Magela é candidato do Movimento PT à presidência nacional do partido, com o apoio do parlamentar pernambucano.

Disse Magela: "O PT se transformou numa secretaria de homologações de indicações do governo Lula. Muitas vezes, de uma só tendência". A intenção do parlamentar era a de atacar os adversários do Construindo um Novo Brasil (CNB), tendência que há anos mantém a hegemonia do partido, e pretende dar continuidade ao monopólio nas eleições internas que o PT realiza em novembro, agora com a candidatura do sergipano José Eduardo Dutra.

A crítica de Magela, porém, termina por explodir no colo de todo o partido. Afinal, quem trabalhou para eleger Lula foi somente o pessoal do CNB? O então presidenciável petista não teve também o apoio integral do CEU?

Difícil, mesmo, é ser governo. Essa é a conclusão a que muitos já chegaram, mas que parece faltar a uma larga fatia de petistas, que ainda pensam estar no papel de pedra. Ou seja, de oposição.

Desde que virou vitrine - ou seja, governo - o PT tem chiado muito as críticas, inerentes a quem quer que esteja no poder.
Deveria, isto sim, aproveitá-las, para aperfeiçoar sua administração e, principalmente, sua postura política. Que, aliás, a cada dia vem perdendo mais "sex appeal", assumindo um comportamento cada vez mais institucional e deixando de ser atraente para o eleitor. Ao menos para aquele eleitor que, no passado, tinha o maior tesão pelo PT.



sexta-feira, 11 de setembro de 2009














O animal político

Engana-se quem pensa que esta quinta visita do presidente Lula a Pernambuco em 2009, que acontece nesta sexta-feira, tem um caráter menos político que as anteriores. Lula só para de fazer política quando dorme. Se é que não sonha todas as noites com a eleição da ministra Dilma Rousseff para o seu lugar, em 2010.

Os eventos previstos na agenda do presidente são todos efetivamente econômicos. Tem cais em Suape, indústria naval, indústria alimentícia e centro de tecnologia de medicamentos. Até a inauguração da escola profissionalizante de Ipojuca tem lá sua derivação, já que visa a colocação de jovens no mercado de trabalho.


Dessa vez, Dilma não integra a comitiva presidencial no Estado. Ficou em Brasília, de repouso, recuperando-se do duro tratamento contra o linfoma. Mas isso não impede Lula de fazer política. Aliás, proselitismo político.

Prova disso é que duas das cinco obras "inauguradas" por ele hoje já estavam em pleno funcionamento desde janeiro. O moinho da Bunge Alimentos, em Suape, e a Escola Profissionalizante de Ipojuca. As festas, nesses dois lugares, não passaram de pirotecnia eleitoral.


Quanto ao Cais 5 de Suape, embora tenha sido inaugurado - de verdade - hoje cedo pelo presidente, teve quase toda a sua construção bancada por dinheiro azul e branco, dos cofres estaduais, ao contrário dos outros píeres, que receberam gordas fatias de verbas federais.


Nada disso inibe a fome política de Lula. E da mesma forma como fez ao longo de sete anos de governo com o Bolsa-Família e, depois, com o PAC, em cada discurso que fez em Pernambuco Lula deu um jeito de inserir o novo mote da campanha petista de 2010: o pré-sal.

Fosse em Suape, numa indústria de alimentos ou numa escola técnica, o pré-sal estava na fala presidencial como a nova tábua de salvação do Brasil. E sempre temperado com elogios aos aliados políticos, cuja colaboração nesses sete anos de gestão petista foram - segundo o chefe - imprescindíveis para o País "dar certo".


Bom, se um comportamento como esse não é pura política, imagine quando a campanha presidencial estiver deflagrada oficialmente?